É um dos pilares da cooperativa. Segurança, alegria e precisão são parte das diretrizes com que exerce o cargo de Coordenadora Geral da equipe da Sulá Batsú. É Engenheira de Computação pelo Instituto Tecnológico da Costa Rica e Antropóloga pela Universidade da Costa Rica. Está fazendo doutorado no programa interdisciplinar sobre a sociedade da informação e do conhecimento da Universidade Aberta da Catalunha. Coordena o Projeto TIC-as e desenvolve outras pesquisas, por exemplo sobre o papel das TIC nos processos de inovação das organizações e empresas sociais da América Central. Em breve iniciará seus estudos de mestrado.
SULÁ BATSÚ
A conhecida química, física e prêmio Nobel Marie Curie, também Hipátia, a filósofa, matemática e astrônoma grega, ou a mais recente Carol Shaw, primeira mulher designer de videogames, são algumas das figuras femininas que integram uma das campanhas da cooperativa Sulá Batsú. Lançada em setembro de 2015, busca reivindicar o importante papel que as “Mulheres na ciência e na tecnologia” desempenharam na humanidade.
Localizada em San José, Costa Rica, a cooperativa Sulá Batsú tem entre seus objetivos desenvolver conhecimento e habilidades para que as mulheres possam ser protagonistas das tecnologias e de outras iniciativas produtivas. “Hoje, no setor das tecnologias, há uma participação de 80% de homens, enquanto nós, mulheres, ocupamos apenas 20%”, diz Kemly Camacho, uma das integrantes da cooperativa Sulá Batsú.
Dentro dessa cooperativa ocorre exatamente o contrário: aqui trabalham quatro homens e 16 mulheres. Mas os desafios não incluem apenas maior participação das mulheres; igual interesse tem o papel que devem desempenhar. “Não queremos que elas entrem como mão de obra, mas que proponham a maneira como se deve criar tecnologia em nossos países”, diz Kemly a La Coperacha.
Sulá Batsú
Sula era o curandeiro indígena e pai da “menina terra” na mitologia Bribri, cultura assentada na região que abrange zonas da Costa Rica e do Panamá. Sula é quem traz a semente e molda o ser humano para que nasça. Quanto à palavra Batsú significa colibri e faz referência ao espírito.
A Sulá Batsú é integrada por profissionais de diferentes disciplinas; seu trabalho principal gira em torno dos eixos das tecnologias da informação, do conhecimento livre e aberto, da cultura como motor de desenvolvimento e da economia social e solidária como alternativa para as populações.
Autodefinida como uma cooperativa autogestionária de profissionais, a Sulá Batsú insiste em ancorar-se no local e destaca suas persistentes atividades em diferentes eixos durante grande parte do ano. Desde o mais íntimo de seu significado cosmogônico Bribri, a Sulá Batsú começou seu trabalho há dez anos com o objetivo de semear a semente do conhecimento em comunidades da Costa Rica.
“O interesse nasceu de profissionais que se juntam para fortalecer suas capacidades, e para que nossos saberes se misturem com os saberes locais e se fortaleçam as dinâmicas locais”, explica Mariana Calvo, uma das sócias.
Tecnologia e comunidades. “Romper o 80/20”
As Tecnologias da Informação e Comunicação, ou TICs, como são conhecidas na linguagem coloquial, são uma das linhas em que a Sulá Batsú atua, evidentemente com a mulher como eixo central. Um dos projetos mais visíveis, em referência ao gentílico costa-riquenho para as mulheres, é o TIC-as, projeto desenvolvido junto com o Fundo de Igualdade de Gênero da ONU Mulheres.
Dentro desse programa insere-se o “Clube de meninas e tecnologia”, realizado em espaços universitários e públicos, como bibliotecas, onde se busca que as meninas utilizem a tecnologia para conhecer e difundir riquezas locais, bem como para refletir e resolver problemáticas de seu entorno.
O “Clube de meninas e tecnologia” havia começado há pouco quando nasceu outro projeto, pois as mães que acompanhavam suas filhas ao clube perguntaram se era possível criar um clube para elas enquanto esperavam. O projeto TIC-as respondeu de imediato com a abertura do “Clube de mães e tecnologia”.
O Projeto TIC-as tem como objetivo integrar as mulheres na economia tecnológica, com a formação de lideranças de jovens mulheres rurais. “Precisamos que o setor da economia tecnológica integre mais mulheres, mas não como empregadas; é preciso que as mulheres tenham incidência na tecnologia que se produz em nossos países”, explica Kemly.
“Tem esse enfoque de direitos econômicos, e aqui estamos criando um modelo; queremos que se entenda que esse tema da integração das mulheres às tecnologias precisa ser abordado integralmente. Abordado com as meninas, as escolas, os colégios, as universidades, as empresas de tecnologia, as câmaras da tecnologia, e com política pública e as instituições”, acrescenta.
Economia Social e Solidária
Apesar de grande parte de sua energia ser dedicada aos projetos tecnológicos com mulheres, também trabalham em áreas de pesquisa social, desenho, gestão e acompanhamento de projetos, e desenvolvimento de metodologias e processos. A chamada Economia Social e Solidária (ESS) não lhes é alheia. “Apostamos no tema da economia solidária desde que nascemos; acreditamos em processos redistributivos diferentes”, aponta Kemly.
Kemly observa muitas iniciativas dentro da ESS na Costa Rica, mas que não se identificam nessa esfera. Explica também que na Costa Rica se está tentando elaborar uma Lei de Economia Social e Solidária. “Temos instituições e mecanismos que fortalecem toda essa parte cooperativa, mas agora se está tentando ampliá-la para a economia social e solidária”.
“Para as câmaras empresariais tem sido muito difícil aceitar que se reforce e fortaleça a economia social e solidária”.
Casa Batsú. Arte e cultura para a redução de estereótipos
O acesso e a promoção da cultura são elementos importantes na vida cotidiana desta cooperativa. Em grande parte, recaem sobre seu espaço cultural denominado “Casa Batsú”. Apresentações de obra pictórica, gráfica e de quadrinhos, projeção de filmes e documentários, eventos de música e até degustação de mezcal trazido do México têm lugar nesse espaço multicultural.
O trabalho a partir da ótica da cultura tem um papel transversal nas atividades da cooperativa; comprovam-no os concursos de Grafite e a realização de oficinas. “A arte é um motor de mudança, e tentamos vinculá-la ao restante dos projetos. É uma forma de nos aproximarmos das comunidades, de dinamizar as tecnologias; conseguimos novos canais que não tínhamos com outros setores de jovens”, comenta Mariana.
A Sulá Batsú busca utilizar “a arte e a cultura para a redução de estereótipos”. “Isso nos ajudou a nos ancorar no local; as pessoas já nos situam nesse sentido e sabem que aqui se faz transformação social”, diz com orgulho Kemly.
Participações
Como PalestranteComo ModeradoraInstitucional

